
No princípio, não levei muita fé. Estava errada. As mudanças na nossa língua escrita, em virtude do novo acordo ortográfico, estão aí. O propósito é instituir uma grafia oficial única no Brasil e nos outros países de língua portuguesa. Agora só falta o presidente Lula assinar – o que vai acontecer em janeiro de 2009. Sim, o pesadelo iniciado em 1990 está prestes a se tornar realidade. :/
Na prática, apenas 0,43% das nossas palavras sofrerá mudança, mas essas pequenas alterações vão causar uma dor de cabeça substancial, visto que serão eliminados acentos diferenciais – uma agressão à nossa fonologia –, o trema será definitivamente extinto e a problemática dos hífens continuará – vai sair um hífen aqui, entrar outro ali, mas a verdade é que seu uso continuará nonsense.
Agora pergunto: nossa identidade e cultura não têm valor na língua escrita? Ora, a língua escrita, tanto quanto a falada, é um retrato fiel da nossa evolução histórica. É lamentável essa imposição de regras, desprezando o fato de que somos nós, falantes, que fazemos a língua brasileira existir, dia após dia… Cá entre nós, há alguma dúvida de que o interesse dessa reforma é puramente comercial?
Num gesto de mea-culpa, o MEC deverá levar a minuta do decreto para consulta pública mês que vem. Assim, profissionais do texto (sindicatos dos editores, secretarias de educação, universidades, etc.) poderão contestar datas e prazos para as mudanças entrarem em vigor. Como se fizesse alguma diferença. As mudanças, que são o que interessa, não estarão em pauta.
Abaixo, o que muda no Brasil:
ALFABETO
# O alfabeto passará de 23 para 26 letras – serão incluídas as letras K, Y e W.
TREMA
# O trema será totalmente abolido: agüentar será grafado aguentar, argüir será grafado arguir.
ACENTUAÇÃO
# Ditongos abertos éi e ói não serão mais acentuados em palavras paroxítonas: idéia será grafado ideia, heróico será grafado heroico.
# Os hiatos ôo e êe não serão acentuados: enjôo será grafado enjoo, crêem será grafado creem.
# Acento diferencial – O acento será abolido das palavras pára (verbo parar), péla (verbo pelar e substantivo), pêlo (substantivo), pêra (substantivo), pólo (substantivo). A grafia correta passará a ser, respectivamente: para, pela, pelo, pera, pólo.
Obs.: o acento diferencial continuará em pôr (verbo) e pôde (verbo poder).
# Perdem o acento as letras i e u em caso de hiato precedido por um ditongo: feiúra será grafado feiura, baiúca será grafado baiuca.
HÍFEN
# O hífen não será mais utilizado em palavras formadas por prefixos ou pseudoprefixos terminados em vogal + palavras iniciadas por r ou s. Em vez de usar o hífen, essas consoantes deverão ser dobradas: ante-sala será grafado antessala, auto-suficiente será grafado autossuficiente.
# O hífen não será mais utilizado em palavras formadas por prefixos ou pseudoprefixos terminados em vogal + palavras iniciadas por outra vogal: auto-escola será grafado autoescola, semi-automático será grafado semiautomático.
# O hífen será utilizado em palavras formadas por prefixos ou pseudoprefixos terminados em vogal + palavras iniciadas pela mesma vogal: antiinflamatório será grafado anti-inflamatório, microônibus será grafado micro-ônibus.
Obs.: a exceção é o prefixo co, que se aglutina com o segundo elemento, mesmo quando este for iniciado por o: cooperar, coordenar.
# O hífen não será mais usado em palavras compostas que, pelo uso, perderam a noção de composição: manda-chuva será grafado mandachuva, pára-quedas será grafado paraquedas.
Obs.: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, assim como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz, azul-escuro, erva-doce.
# O hífen não será usado em locuções de qualquer tipo (substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais), salvo em algumas locuções já consagradas pelo uso, como, por exemplo: água-de-colônia, mais-que-perfeito, pé-de-meia.
É isso mesmo, gente. Resolveram que o legal é grafar voo, jiboia, pinguim… De fato, essa mudança será ótima para as editoras de livros didáticos.
Com ou sem consulta pública, a previsão é que já em 2009 os textos de publicações como jornais e revistas estejam em conformidade com as novas regras, e o prazo final para implementação será dezembro de 2012 – quando as mudanças passarão a ser obrigatórias. Mas já há editoras trabalhando seguindo essa padronização, então é bom começarmos a nos familiarizar com essa sandice, digo, reforma.
Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, na íntegra:
http://www.scribd.com/doc/2586763/acordo-ortografico-1990
Considerações do professor Sérgio Nogueira:
http://colunas.g1.com.br/portugues/2008/06/04/a-reforma-ortografica-vem-ai/